Atenção pessoal da área , estão abertas as inscrições para a palestra
"Princípios de Organização de Reservas Técnicas"
MIS de SP - 11 de nov. de 9 às 17h.
Grátis: http://www.fundacaobunge.org.br/
Será ministrada por Gedley Braga , grande restaurador e pesquisador na área.
Corra que são apenas 100 vagas . Minha vaga já tá garantida !
Abraços
Alegria e êxtase
O termo "afresco" é utilizado para descrever o processo tradicional do "buon fresco" : consiste em pintar sobre uma parede de argamassa de cal de preparo recente , ainda úmida , com pigmentos moídos somente em água . Quando a argamassa seca , endurece como pedra , e os pigmentos secam como se fossem parte integral da superfície .
Quem assistiu ao filme " Agonia e êxtase " pode ver Michelangelo pintando cada etapa da Capela Sistina . E os ajudantes fazendo a argamassa e misturando os pigmentos para fazer a tinta . Um lindo filme de 1965 . Indico para todos os amantes das artes .
Eu já tinha restaurado pinturas murais antes , mas nunca um afresco ! O mais inusitado foi o local onde foi feito . Quem passa pela Consolação , em São Paulo , indo em direção ao centro nem pode imaginar , que em um daqueles edifícios antigos , feiosos e pequenos existe um afresco tão lindo . E não é no Hall de entrada , ou algo assim . Foi feito dentro de um apartamento de apenas um dormitório , sala e cozinha ... A pintura deve valer mais do que o apartamento hoje em dia .
O artista , nada menos que Antonio Gomide . Uma pintura belíssima , uma alegoria à música .
A pintura ficava bem no corredor de acesso ao quarto , seria a parede lateral da sala . No apartamento morava de aluguel uma família de quatro pessoas . A proprietária do imóvel nos explicou mais tarde que aquele apartamento havia sido dividido em dois , e aquela parede havia ficado para o lado menor do imóvel .
A dona da obra de arte sabia muito bem o valor do tinha na parede , e preocupada com as condições da conservação da pintura chamou meu mestre Anchieta e eu para restaurá-la . Aproveitando um feriado prolongado no qual a família tinha ido viajar .
Conseguimos montar um pequeno andaime na sala e trabalhamos quatro dias inteiros lá . Ainda bem que o restauro necessário era pouco . A pintura apresentava vários riscos , abrasões e algumas perdas . Fizemos apenas umas fixações localizadas nivelamentos e retoques .
Foi a primeira vez que vi de tão perto um afresco e este ainda é maravilhoso . A delicadeza das pinceladas perfeitas , deu para ver até os pontos da linha do desenho , que o artista faz antes de pintar . Muito lindo mesmo .
Com mais este trabalho realizado e feliz da vida , sempre que passo pela Consolação engarrafada , fico sorrindo por saber que lá em cima , num apartamentinho escondido tem uma pintura incrível que eu ajudei a preservar !
A Cidade Maravilhosa
Acreditem vocês que eu não tinha conhecido o Rio de Janeiro ainda , sim já viajei bastante por aí , Tailândia , Amsterdã , NY , São Francisco , Paris . Mas a cidade maravilhosa era meu sonho conhecer !
Acho que nunca tinha ido antes por puro medo , de ouvir tantos relatos das balas perdidas , das favelas , aquela lenda que paulistano escuta , que se você pegar uma rua errada , vai sair numa favela e vão te roubar e etc .
Mas quando fui chamada para fazer um trabalho lá , esqueci tudo isso e fui voando conhecer o Rio .
Trabalhei no Museu Nacional de Belas Artes , no Centro , ao lado da Biblioteca Municipal , e me surpreendi com tantos prédios antigos e lindos que existem no Centro do Rio .
Fui chamada para fazer os laudos de conservação da Mostra Espanha Século XVII : O sonho da razão .
O prédio é magnífico por fora e por dentro , a escadaria que dá acesso às salas superiores é um show a parte . Aliás , tudo lá dentro é muito bonito.
Acho que nunca tinha ido antes por puro medo , de ouvir tantos relatos das balas perdidas , das favelas , aquela lenda que paulistano escuta , que se você pegar uma rua errada , vai sair numa favela e vão te roubar e etc .
Mas quando fui chamada para fazer um trabalho lá , esqueci tudo isso e fui voando conhecer o Rio .
Trabalhei no Museu Nacional de Belas Artes , no Centro , ao lado da Biblioteca Municipal , e me surpreendi com tantos prédios antigos e lindos que existem no Centro do Rio .
Fui chamada para fazer os laudos de conservação da Mostra Espanha Século XVII : O sonho da razão .
O prédio é magnífico por fora e por dentro , a escadaria que dá acesso às salas superiores é um show a parte . Aliás , tudo lá dentro é muito bonito.
Foram chamados três conservadores da Espanha , e três aqui do Brasil . A equipe se entrosou bem , e a gente trabalhava falando o mais puro " portunhol ". Foram quinze dias de trabalho na montagem . As caixas com as obras iam chegando , e nós acompanhávamos a abertura , fazíamos os laudos de conservação e acompanhávamos a colocação no lugar . Eram muitas peças , telas , esculturas , cerâmicas , jóias e vestimentas .
E mais uma vez acompanhei toda montagem da exposição , desde a cenografia , a museologia e a iluminação .
Fiquei hospedada num dos melhores hotéis de Copacabana , do terraço dava para se ver toda a orla . Me apaixonei pelo Rio logo de cara . E nas horas vagas , depois do trabalho às 17/18 hs, eu ia desbravando o que podia . Caminhadas no calçadão de Copacabana até Ipanema , muita água de coco e à noite Leblon . Até consegui ir sozinha de ônibus e metrô até o Cristo Redentor , uma das visões mais maravilhosas da minha vida , mais lindo até do que subir na torre Eiffel !
Me sentia estranhamente da cidade , conversava com todos , lá te tratam muito bem "SALVE SALVE SIMPATIA CARIOCA" .
O trabalho era cansativo , em pé e andando de um lado para o outro o dia todo , mas muito gratificante , ter em mãos obras do Museo Reina Sofia , Museu do Prado , olhar de perto , tocar ( de luvas ) ,não é para qualquer pessoa . Anotávamos tudo que achavámos , craquelês , manchas , desgastes , perdas , riscos . E os conservadores espanhóis iam acompanhando nossos laudos .
Na desmontagem da exposição fiquei uma semana , mas não menos proveitosa . Conheci o morro de Santa Teresa , lugar dos artistas , com seus vários ateliês , lojinhas , barzinhos e a vista maravilhosa da Baia de Guanabara . Ahhhh ... e a praia da Barra , me apaixonei por este lugar .
O Brasil ganhou a Copa do mundo enquanto eu estava lá , e pude até festejar nas areias de Copacabana com o samba da Mangueira rolando . E os espanhóis cantando junto com a gente " Eeeu .. sou brasileirooo , com muito orgulhooo ... com muito amooor " rsrs .
Não ocorreu nenhum acidente nas obras de arte durante a exposição e tudo correu bem . Conferíamos o laudo e a equipe da montagem embalava , encaixotava e lacrava as obras . E elas estavam prontas para voltarem para a Espanha .
Sozinha no aeroporto , sentada na minha mala esperando meu vôo , tive a certeza de que recebi um dos maiores presentes do mundo , em forma de trabalho . Eu nunca mais fui a mesma , a Cidade Maravilhosa deixou marcas no meu coração para sempre . Voltei mais quatro vezes para lá , à passeio , e sempre que vou , esta cidade me surpreende e encanta , ainda quero voltar mais mil vezes , se for possível . E o Cristo Redentor sempre estará lá para me receber de braços abertos .
Obrigada Rio de Janeiro !
O Pateo do Colégio
O marco de fundação de São Paulo é o Pateo do Colegio , no Centro . Fundado pelos jesuítas , foi o primeiro Colégio da cidade . O padre José de Anchieta foi seu fundador .
Em 2001 foi feita uma grande restauração lá , incluindo o prédio e todo o acervo do museu .
Antigamente esse museu era um verdadeiro horror , mal cuidado , sem museologia adequada .
Hoje é um lugar lindo , com uma intensa visitação .
Não é para menos , as peças que o museu abriga são fantásticas . Várias telas , esculturas policromadas , e peças de Igrejas .
Lembro que esse ano foi bem agitado , eu trabalhei em dois ateliês ao mesmo tempo , que pegaram peças para restaurar , e tive o privilégio de ter em mãos esculturas maravilhosas , como os Cristos , variados santos e muitas telas .
Muitas peças do acervo estavam bem danificadas , e quase todas com bastante repintura.
Esta tela , por exemplo , foi uma das quais me lembro bem . Retrata o Padre José de Anchieta no Brasil , com um animal ao lado , uma onça ou jaguatirica . Visão de algum europeu , claro . Mas a tela não tinha assinatura .
Várias esculturas estavam também bem danificadas , sujas e repintadas fizemos a remoção das repinturas com bisturi e solventes adequados , trabalho bem lento e minucioso , os nivelamentos e as reintegrações cromáticas necessárias . Um trabalho muito recompensador !
Aprendi muito mais sobre restauro e suas técnicas neste ano . Conheci e tive a honra de trabalhar com uma das melhores restauradoras do Brasil .Cresci muito com este trabalho , lógico que nesta época eu já tinha feito o curso de formação em restauro , mas a prática , com peças tão diferentes foi a melhor escola .
Antigamente esse museu era um verdadeiro horror , mal cuidado , sem museologia adequada .
Hoje é um lugar lindo , com uma intensa visitação .
Não é para menos , as peças que o museu abriga são fantásticas . Várias telas , esculturas policromadas , e peças de Igrejas .
Lembro que esse ano foi bem agitado , eu trabalhei em dois ateliês ao mesmo tempo , que pegaram peças para restaurar , e tive o privilégio de ter em mãos esculturas maravilhosas , como os Cristos , variados santos e muitas telas .
Muitas peças do acervo estavam bem danificadas , e quase todas com bastante repintura.
O estado de conservação dela era o pior possível , estava reentelada , de modo errado , e com grandes áreas de repinturas e com nivelamento grosseiro.
Nesta foto é o momento em que retiramos todas as intervenções incorretas , para aí sim , fazer um trabalho adequado . Olhando assim parece assustador , mas para quem quiser ver a tela restaurada é só dar uma passadinha no Museu do Pateo do Colegio.
Nesta foto é o momento em que retiramos todas as intervenções incorretas , para aí sim , fazer um trabalho adequado . Olhando assim parece assustador , mas para quem quiser ver a tela restaurada é só dar uma passadinha no Museu do Pateo do Colegio.
As peças que não eram feitas por mim , eu sempre ia olhar e aprender cada etapa , com os outros restauradores , o que eles estavam fazendo .
Aprendi muito mais sobre restauro e suas técnicas neste ano . Conheci e tive a honra de trabalhar com uma das melhores restauradoras do Brasil .Cresci muito com este trabalho , lógico que nesta época eu já tinha feito o curso de formação em restauro , mas a prática , com peças tão diferentes foi a melhor escola .
A Igreja de Santa Teresinha
Quem conhece bem São Paulo sabe que casar na Igreja de Santa Teresinha , perto do Pacembu , é uma tradição entre as famílias ricas . Depois da Nossa Sra. do Brasil , ela é talvez a segunda Igreja mais procurada ! E isso por causa da famosa "chuva de pétalas de rosa" no altar , depois do " SIM " .
A Igreja é pequena , muito linda , e pintada pelos irmãos Gentili , os mesmos de São Roque .
Quando fui fazer um trabalho lá , o estado de conservação das pinturas ainda era boa , com pequenas excessões de alguns descolamentos da pintura na nave central . O problema a qual fui chamada a resolver , junto com meu mestre Anchieta , era dos corredores laterais. Por estar incrustada entre um prédio e uma escola , os corredores estavam com muitas infiltrações e a pintura estava se perdendo .
O desastre maior foi o que fizeram , os corredores já haviam sido restaurados , quer dizer REPINTADOS ! e muito mal feito . As cores erradas ( muito vibrantes ) as máscaras e filetes em posições erradas .
Depois de retirar a repintura e finalmente achar o original , as cores certas foram feitas , no estilo Gentilli de tons , até um filete e ornamentação dourada foi resgatado , e deu mais luz e vida as pinturas ornamentais . Foram poucos meses de trabalho , pois não queriam mexer na nave central por falta de verba .
Mas o mistério da " chuva de pétalas de rosas " eu consegui descobrir como era feito .... rs . Um menino era pago ( 10 reais ) , para subir no forro da Igreja e fica deitado lá , só espiando o casamento através de um buraco pequeno , na hora do " Pode beijar a noiva " , ele jogava as pétalas !!!
A Igreja é pequena , muito linda , e pintada pelos irmãos Gentili , os mesmos de São Roque .
Quando fui fazer um trabalho lá , o estado de conservação das pinturas ainda era boa , com pequenas excessões de alguns descolamentos da pintura na nave central . O problema a qual fui chamada a resolver , junto com meu mestre Anchieta , era dos corredores laterais. Por estar incrustada entre um prédio e uma escola , os corredores estavam com muitas infiltrações e a pintura estava se perdendo .
Mas o mistério da " chuva de pétalas de rosas " eu consegui descobrir como era feito .... rs . Um menino era pago ( 10 reais ) , para subir no forro da Igreja e fica deitado lá , só espiando o casamento através de um buraco pequeno , na hora do " Pode beijar a noiva " , ele jogava as pétalas !!!
Enfeite de lareira ? jamais !!!
Uma obra de arte é muito mais que um simples objeto de decoração , ainda mais quando é uma pintura antiga e de certo valor . É também um bem cultural , e deve ser tratado como tal .
Uma vez fui ver uma tela na casa de uma Sra. muito culta e de um certo status social .
A tela era linda , apesar de não se conseguir ver muita coisa . Era muito antiga , escura , com pinturas de santos , " estilo cusquenho " . A camada pictórica estava totalmente recoberta por uma sujeira amarela-esbranquiçada . Apresentava perdas , enfim , um caso sério !
Levei ao ateliê e descobri a causa daquele problema . A tela por ser antiga , já havia sido restaurada , e o reentelamento foi feito a base de cera .
A tela ficava em cima da lareira , assim com o calor da lareira acesssa , o reentelamento ia derretendo e subia para a camada pictórica .
Fiz a limpeza , a retirada do reentelamento , um novo reentelamento com outro produto , a fixação da camada pictórica ,os nivelamentos e o retoque . E pronto , a tela estava linda e saudável .
Agora era só convencer a dona da tela que em cima lareira não é lugar de obra de arte .
Uma vez fui ver uma tela na casa de uma Sra. muito culta e de um certo status social .
A tela era linda , apesar de não se conseguir ver muita coisa . Era muito antiga , escura , com pinturas de santos , " estilo cusquenho " . A camada pictórica estava totalmente recoberta por uma sujeira amarela-esbranquiçada . Apresentava perdas , enfim , um caso sério !
Levei ao ateliê e descobri a causa daquele problema . A tela por ser antiga , já havia sido restaurada , e o reentelamento foi feito a base de cera .
A tela ficava em cima da lareira , assim com o calor da lareira acesssa , o reentelamento ia derretendo e subia para a camada pictórica .
Fiz a limpeza , a retirada do reentelamento , um novo reentelamento com outro produto , a fixação da camada pictórica ,os nivelamentos e o retoque . E pronto , a tela estava linda e saudável .
Agora era só convencer a dona da tela que em cima lareira não é lugar de obra de arte .
Um caso curioso
Eu estava trabalhando de volta no ateliê, fazendo telas outra vez . Um dia uma amiga da época de colégio me liga, e pede para eu ir ver uma tela do pai dela.
É uma família de italianos, o pai dela veio pequeno para cá, e lógico trouxeram muitas obras de arte da Itália. Fui olhar a tela, uma marinha muito bonita e bem pintada . Minha surpresa foi quando olhei atrás do quadro ( restaurador adora olhar o verso da tela , pois é lá que se descobre muita informação sobre o estado de conservação ) e tive uma surpresa, a tela não tinha chassi !
Nunca tinha visto algo assim, a tela estava toda deformada, pois havia sido pregada diretamente na moldura !
O pai da minha amiga nunca tinha percebido isso, me contou que achava que o pai dele deve ter trazido a tela enrolada na mala e colocado numa moldura aqui no Brasil.
O difícil foi convencê-lo que era necessário fazer um chassis, com cunhas e que isso era um dos motivos do valor do restauro.
Normalmente quando pegamos uma tela para restaurar, o chassis tem que estar adequado para cada tela, o chassi com cunha é utilizado porque a tela normalmente se movimenta e o chassi deve movimentar-se junto. Quando uma tela tem chassi fixo, isso é pregado ou colado, sem cunhas, o melhor é sempre trocá-lo, para não haver a deformação da tela e por consequência o craquelamento e perdas da camada pictórica. Telas muito grandes necessitam de chassis com travas horizontais ou em cruz , dependendo do tamanho.
A saúde de uma tela depende de vários fatores, o chass , o suporte, a base de preparação, a camada pictórica e o verniz .E também do local onde ela fica, com condições climáticas adequadas.
Reentelar ou não reentelar ? eis a questão ...
Uma prática comum na restauração é o reentelamento. Quando se adere um novo tecido , preferencialmente linho , a uma tela estragada . O linho é usado pois é um tecido que não deforma com o tempo, o algodão por exemplo, deforma-se com a umidade .
Há muitas controvérsias no mundo da restauração quanto a se reentelar ou não . Uma tela restaurada e que não foi necessário fazer o reentelamento é mais bem vista pelos colecionadores . Uma vez que o tecido guarda em si características únicas da época em que foi feito .
Reentelar é necessário quando o tecido está deteriorado
" puído ", comprometendo a pintura , grandes deformações ou se existe um rasgo muito grande , ou vários rasgos .
verso de tela com manchas e deformidades
Quando restauramos uma tela antiga século XVII , XVIII , e que foi anteriormente restaurada , as vezes encontramos um reentelamento , este era feito na Europa com cola de farinha , que apodrece e deixa resíduos difícies de se retirar . Temos que desgrudar o tecido do reentelamento por trechos e depois raspar com cuidado toda a " cola " restante da tela original . É um processo longo e trabalhoso . Como também é a retirada de reentelamento feito com cera . Muito utilizada também . A cera é ainda usada por restauradores que não se modernizaram . E também deixa muito resíduos na tela original .
retirada de reentelamento
Como eu já expliquei anteriormente , no restauro correto , retiramos todas as intervenções anteriores para se chegar mais próximo do original possível e só depois , tratar a obra .
Um dos problemas que ocorrem quando uma tela não é bem reentelada são as bolhas de falta de aderência . O que traz movimentação para a tela , podendo até criar craquelês e perda de pintura. Também ocorrem manchas no verso da tela , feitas por quem não sabe reentelar .
manchas no verso de uma tela reentelada errado
exemplos de telas reenteladas corretamente
Os produtos hoje utilizados modernizaram-se bastante . Existe no mercado hoje um produto que não deixa resíduos é limpo e ótima aderência . Saiba bem para quem entregar sua obra de arte , pergunte sempre as técnicas utilizadas para não haver sustos e arrependimentos posteriores .
O desastre das repinturas
O trabalho mais dificil para um restaurador é a remoção das repinturas !
Muitas vezes chegam até nós telas que já passaram nas mãos de " pseudo-restauradores" , que
acabam estragando mais a obra do que restaurando.
O trabalho das remoções de repinturas é um dos mais delicados a serem feitos , pois exigem do restaurador um conhecimento profundo da obra do artista , dos solventes a serem usados e também delicadeza e paciência .
Depois da limpeza superficial feita e a retirada do verniz , é que aparecem os primeiros indícios de uma pintura por baixo da original.
Muitas vezes a remoção é feita com bisturis bem afiados, para se retirar cada camada sobreposta..
Além das repinturas , um problema que encontramos em algumas telas são os nivelamentos feitos com materias inadequados ( como durepoxi , massa corrida , jornal ) . O restaurador para salvar uma obra deve devolver a ela suas características originais. Toda intervenção anterior deve ser removida , chegando o mais proximo do original possível .
E toda nova reintervenção do restauro deve ser obrigatoriamente REVERSÍVEL . Usando materias adequados a cada tipo de obra .
A tela aqui mostrada pertence ao acervo de arte cusquenha do Bank Boston , e a imagem de Santo Antonio é de cliente particular .
BRASIL 500 anos , o grande evento
Era o ano das comemorações de 500 anos do Descobrimento do Brasil, e o país todo se agitava para as mais diversas festividades . Entre elas a maior exposição de Arte já vista .
A " Mostra do Redescobrimento Brasil +500 " .
Ocupou os três espaços do Ibirapuera , a OCA , A BIENAL , e onde é hoje o Museu Afro Brasileiro , além de uma sala de projeções ao lado da Bienal chamada " Cine Caverna ".
"Decidimos incluir na mostra um elemento
revolucionário que mudasse, definitivamente,
a história das exposições no Brasil :
em vez de apresentar obras de arte da forma tradicional , resolvemos transformar cada um dos módulos da exposição
em um autêntico espetáculo cenográfico,
a serviço da maior ênfase à beleza dos trabalhos expostos e da compreensão do seu conteúdo. "
Edemar Cid Ferreira
Foi um grande evento , que atraiu um público gigantesco , e foi executado por centenas de pessoas das mais diferentes áreas , desde a reforma da Marquise , dos Pavilhões , a cenografia , iluminação , museologia , conservação , curadoria , transporte de obras , área educativa e patrocinadores.
Bem antes do evento começar fomos chamados as pressas , Anchieta e sua equipe ( eu e Anna ) , para restaurar um painel que existia na OCA. Estava tudo em obras a mil por hora lá , e o painel atribuído a Clóvis Graciano estava se deteriorando devido a infiltração de água no local.
O trabalho não era nada fácil , pois a parede estava bem úmida , que chegava a escorrer . E não havia tempo para se restaurar o painel como devia ser feito , como sempre , deixaram tudo para última hora .
E tinha também muita gente lá dentro , entre pedreiros , eletricistas , soldadores , o barulho era insuportável .
Fomos fazendo nosso trabalho , secagem da parede , limpeza , fixação das partes em descolamento , nivelamento e começamos o retoque .
Mas a equipe da cenografia logo foi chegando e tivemos que parar este trabalho pela metade.
Fizeram então uma parede falsa , de madeira para esconder o painel . E até hoje não sei o que foi feito dele ....
Tinha muita trabalho a se fazer lá na Brasil +500 , os quadros iam chegando , muitos deles precisando de restauro , e fomos encarregados de restaurar vários deles . Montamos uma sala de conservação e restauro lá dentro do primeiro Pavilhão . Era um corre-corre sem fim todos os dias. Fizemos os laudos de conservação das obras de Arte Moderna , das obras do Imagens do Inconsciente e Arte Contemporânea .
Foi simplesmente delicioso trabalhar neste evento , um grande aprendizado da História da Arte , uma honra poder ver tão de perto cada pedacinho de obras de arte , que até então só tinha visto em catálogos ou museus . E também o contato direto com os mais diversos artistas e curadores .
A montagem da cenografia também era um espetáculo a parte , o cenário criado por Bia Lessa para a Arte Barroca foi polêmico e surpreendente , no vão da Bienal ela criou uma Igreja Barroca , onde foram expostas as peças de um Altar Barroco e Imagens .
Foi na montagem da obra "O Helicóptero " de Wesley Duke Lee , que tive meu momento fã ... rsrsrs. Sou uma apaixonada pelos trabalhos deste artista .Eu estava fazendo o laudo e acompanhando a montagem da obra dele .
Como todo artista , ele é um excêntrico apaixonado por arte , quando ele viu através dos vãos a Igreja feita por Bia Lessa em processo de montagem , logo pediu minha máquina fotográfica para registrar um momento que ele nunca tinha visto ! Um Cristo deitado no chão com seu crucifixo ...rs .
A foto está guardada até hoje comigo , como um " obra de arte " do Wesley Duke Lee feito só para mim .
Depois da exposição montada , durou de 23 de abril a 10 de setembro . Fiz a conservação de várias obras e alguns restauros de emergência . Aconteciam imprevistos , lógico , durante toda a exposição.
Uma vez fui socorrer uma obra que haviam grudado um " chiclete " , por uma turma de estudantes .
Uma obra de Hélio Oiticica simplesmente se espatifou no chão , pois era pendurada por fios de nylon que não aguentaram seu peso .
As obras de Anselm Kiefer também sofreram ao longo da exposição , os painéis de madeira , onde eram feitas as colagens do artista , começaram a se movimentar devida a falta de umidade do local onde estavam expostos .
As obras de Arthur Bispo do Rosário estavam cheias de cupins e tivemos que descupinizar e restaurar algumas delas .
Uma obra da Arte Afro Brasileira , que ficava perto das janelas do prédio da Bienal começou a craquelar inteira , e com a autorização dos proprietários eu fiz a fixação dos craquelês as pressas , ou ia começar a cair toda a camada pictórica .
As obras de Anselm Kiefer também sofreram ao longo da exposição , os painéis de madeira , onde eram feitas as colagens do artista , começaram a se movimentar devida a falta de umidade do local onde estavam expostos .
As obras de Arthur Bispo do Rosário estavam cheias de cupins e tivemos que descupinizar e restaurar algumas delas .
Uma obra da Arte Afro Brasileira , que ficava perto das janelas do prédio da Bienal começou a craquelar inteira , e com a autorização dos proprietários eu fiz a fixação dos craquelês as pressas , ou ia começar a cair toda a camada pictórica .
Foram 5 meses de exposição , e quase um ano de trabalho ... trabalhei até nos finais de semana . Mas também aproveitei cada pedacinho da exposição , cada quadro, escultura e objeto .. e lógico as altas festas dos patrocinadores que aconteciam .
Depois veio o processo de desmontagem , os laudos de conservação de saída das obras e as entregas .
Um ano agitado e de muita aprendizagem para mim . Tive a certeza de estar no momento certo , na hora certa e de que realmente estou no caminho certo . E tudo isso é o que amo fazer !
Quinze minutos de fama
O trabalho em São Roque estava a todo vapor , tínhamos uma equipe em harmonia , Anchieta , eu , Paulo e mais tarde o André
( dois pintores de parede excelentes ) .
A cidade estava se encantando com cada nova etapa concluída . Já fazíamos parte da vida pacata da cidadezinha de interior . Por onde a gente andava , erámos reconhecidos ( acho que também por que andavámos todos sujos de tinta ..rs ).
Até saíram notícias no Jornal da Economia ( jornal local ) e até no jornal de Sorocaba sobre a restauração da Igreja Matriz .
Aqui já era o ano de 1997 , eu estava grávida de seis meses do meu filho . E não deixei de subir nos andaimes até o momento da minha médica me proibir aos 8 meses de gravidez . Ainda sai de lá e fui retocar umas telas no ateliê . Tive as primeiras contrações retocando uma tela cusquenha muito linda .
Voltei para São Roque depois de aproximadamente 7 meses , e nesta etapa estava sendo feitos os corredores laterais .
O restauro continuou etapa por etapa até o final , no Altar Mor . Sendo concluído no começo de 2000 .
Um grande trabalho muito bem feito , com muita dedicação e com muito orgulho .
Sempre que posso dou uma escapadinha para São Roque rever a Igreja , e não tem nenhuma vez que eu não fique emocionada !
e ... " VIVA SÃO ROQUE !!! "
Cores e máscaras
A restauração da Igreja Matriz de São Roque era minuciosa . Os andaimes eram montados da porta de entrada e iam em direção ao Altar ,por etapas , a cada 4 ou 5 meses é que mudávamos de lugar . Somente na semana das festividades de São Roque , 16 de Agosto , é que a Igreja era liberada . A festa é até hoje um lugar importante de romaria dos fiéis , e recebe alguns mil visitantes todo ano. É uma loucura ! A Igreja fica o dia todo com um entra e sai de gente , querendo tocar na Imagem de São Roque . A tardezinha do dia 16 tem a procissão , onde o Santo sai e , acompanhado pelos fiéis , percorre algumas ruas do centro , que são decoradas no dia anterior por tapetes de serragem coloridos com desenhos muito bonitos. E termina na porta da Igreja Matriz com o povo gritando a todo instante :
" VIVA SÃO ROQUE !!!"
corredor da nave central da Igreja Matriz de São Roque
Essa lateral que estou me referindo , a metade da parede para baixo da nave central , onde estão os anjos e os Apóstolos foi toda refeita , é nova ! Não se tinha como recuperar a antiga , pois havia caído a pintura toda. Assim como os desenhos ornamentais do teto , quase tudo foi refeito , igualzinho ao original . Hoje , quando ainda passo para visitar a Igreja ainda me surpreendo... não há diferença alguma no novo , feito por nós e o antigo , feito pelo Gentili .
Anchieta e eu
As cores eram as mais variadas , fazíamos todas em potes separados de plástico e as nomeamos ... mas acho que a linguagem criada era só nossa ...rs " roxo da máscara da flor " ," luz das bolinhas da corda ", " amarelo das volutas do teto" . Lá foi onde tive a certeza que minhas aulas de mistura de cores , pintando quadradinhos , tiveram um grande valor .
Acho que fizemos mais de 700 cores diferentes na Igreja toda , era muito detalhe , luzes , filetes e desenhos ornamentais com 7 a 10 cores . Era as vezes um dia inteiro para se fazer 4 ou 5 cores , dependendo do tom . Mas eu amava este trabalho !

As pinturas artísticas dos anjos e Apóstolos , da Nossa Senhora e de São Roque e outros elementos sacros foram apenas retocadas , com um pincel bem fino , preenchendo apenas as lacunas deixadas pelos craquelês .
A pintura ornamental que foi necessário refazer , foi um trabalho árduo a parte , as paredes normalmente tinham uma cor principal de fundo , e por cima variados desenhos sobrepostos feitos numa perfeição de proporção , distância e enquadramento. Copiamos os desenhos , passamos cada parte separadamente para um acetato e recortamos com um estilete , vazando assim o desenho que precisávamos . Depois a parede era marcada com uma fina linha de giz , e era enquadrado cada parte do desenho. Isso foi feito muitas vezes , eram muitos desenhos e muitos detalhes.

Um dos tetos da nave central com desenhos artísticos e ornamentais

Detalhe bem de perto do teto antes do restauro
Aqui nesta foto a cima , temos o exemplo de um detalhe do teto antes do restauro ( esquerda ) e após o restauro (direita ) .
Somente naquele quadrado das estrelas , precisamos de 10 máscaras e quase 17 cores diferentes .
Subindo pelas paredes
Altar da Igreja de São Roque restaurado
Enquanto eu fazia a Imagem de Nossa Senhora da Penha , meu mestre Anchieta estava começando a restauração da Igreja Matriz de São Roque . Esse foi um capítulo importante no meu caminho pela restauração .
As pinturas murais da Igreja são de autoria de um pintor italiano , Pietro Gentili e seu irmão Ulderico . Eles pintaram várias Igrejas em São Paulo , como a Imaculada Conceição ( na av. Brigadeiro Luis Antonio ) , a Achiropita no Bexiga , a Igreja de Santa Teresinha ( na rua Maranhão ) , em Limeira e algumas em Minas.
As pinturas murais da Igreja são de autoria de um pintor italiano , Pietro Gentili e seu irmão Ulderico . Eles pintaram várias Igrejas em São Paulo , como a Imaculada Conceição ( na av. Brigadeiro Luis Antonio ) , a Achiropita no Bexiga , a Igreja de Santa Teresinha ( na rua Maranhão ) , em Limeira e algumas em Minas.
As pinturas são de uma extrema beleza e harmonia , as cores e os desenhos combinavam-se perfeitamente, no teto tem as passagens da vida de São Roque, intercalado por pinturas ornamentais .Os anjos nas paredes carregam o Pai Nosso em latim , intercalados por retratos dos Apóstolos . A Igreja é inteirinha pintada , não existe um cantinho sem um ornamento , um desenho ou um filete que seja , realmente a Matriz de São Roque impressiona a todos seus visitantes .
foto depois do restauro
Quando comecei a trabalhar na Igreja , nunca tinha restaurado pinturas murais , e muito menos subido em um andaime de aproximadamente 15 metros de altura !!! É uma mistura de aventura , emoção e arte .
O estado das pinturas era lastimável , havia ocorrido vários problemas como infiltrações de água nas paredes , perdas das cores originais , todas estavam bem mais claras do que quando foram feitas , por causa da ação do tempo e também pelo calor do forro , as pinturas racharam , ou melhor , em termos técnicos craquelaram .
Foram quase 4 anos de trabalho lá , com muitas estórias para contar , mas vou contando de pouquinho .
pintura lateral do Altar restaurada
Imagens policromadas
Quando falamos em IMAGENS POLICROMADAS estamos nos referindo às esculturas feitas em madeira ou as vezes em gesso , com pintura (ou policromia) . No caso das imagens em madeira , principalmente as antigas e de valor , elas são feitas entalhadas em um bloco só de madeira , podendo ter pedaços colados separadamente (mãos , dedos ou partes de mantos) . O que acontece normalmente é uma movimentação constante da madeira devido ao calor e a umidade , e isso pode causar rachaduras .
Camadas de gesso e cola são usadas para cobrir a madeira como uma base de preparação. Com a movimentação da madeira ou devido a perda do efeito da cola com a ação do tempo, a pintura ou policromia desprende-se.
Para solucionar esse sério problema , é preciso que se estabilize as rachaduras da madeira primeiramente e depois é feita a fixação da policromia com pincel , colocando o fixador por dentro das camadas descoladas.
Era uma imagem portuguesa do século XVIII , entalhada , policromada e com folhas de ouro , quase da minha altura ( tenho 1,63m ) . Trabalhei durante 5 meses nesta imagem , todos os dias da semana , das 8hs as 17hs . Muitos desprendimentos e perdas de policromia , rachaduras e muita sujeira. A imagem ficava abandonada nos porões da Igreja e foi descoberta por um padre local .
Depois de limpa a imagem , foram feitos enxertos de madeira nas rachaduras ,reconstituição com enxerto das partes faltantes ( dedo, manto ) e a fixação da camada pictórica . Logo mais fiz o nivelamento e estava pronta para o retoque . Por baixo da pintura a imagem era toda folhada a ouro , depois que é foram feito os desenhos , retirando a tinta e deixando só o ouro em algumas partes . Respeitei a pintura original , colocando ouro e reintegrando com tinta de restauro apropriada .
Ficou maravilhosa a Nossa Senhora da Penha de Araçariguama , e até ganhou uma missa especial e uma redoma de vidro para proteção, e eu as bênçãos do meu mestre para continuar na restauração .
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